Entrevista com Augusto Campos do BR-Linux


Depois do artigo sobre os “Bons Ditadores” da Web entrei em contato com os responsáveis pelos sites citados, o primeiro a entrar em contato foi Augusto Campos, responsável pelo BR-Linux.

O Augusto me respondeu quase que imediatamente e com uma atenção incrível, isso começa a explicar o sucesso do BR-Linux pra mim, e olha que vindo de alguém como ele, a resposta podia ser um simples “não, obrigado”, que eu entenderia e agradeceria só por ter sido respondido. Mas fazendo jus à comunidade que representa tão bem, Augusto Campos demonstrou durante toda a entrevista uma concepção centrada e responsável naquilo que faz, humildade e responsabilidade.

 

O BR-Linux começou a cerca de 10 anos como um repositório de documentação sobre Linux, com o surgimento de vários outros repositórios tupiniquins, o formato do site mudou e passou a centralizar as principais notícias do universo Open Source. Hoje o BR-Linux se institui como a maior referência em Linux na Web Brasileira, mais um de nossos “Bons Ditadores” da Web.
Leiam a entrevista dada por Augusto Campos ao Nolance.com

 

Nolance.com - Gostaria de começar perguntando sobre o formato do site, que hoje se concentra em notícias da comunidade Linux e de Software Livre em geral. O Site já passou por alguns formatos, como chegou a conclusão de adotar o atual?

 

Augusto Campos - Quando o BR-Linux nasceu, em 1996, a demanda de documentação em nosso idioma sobre os softwares livres mais populares estava bem mais longe de ser suprida com qualidade, e por essa razão - e também porque eu vivia perdendo o bloco em que registrava as minhas próprias anotações sobre Linux, e queria colocá-las em um local sempre acessível - o site nasceu como uma coleção de tutoriais e dicas, mas publicando apenas material original e em bom português, para diferenciar dos (também importantes) repositórios de traduções que já existiam na época.

Ao longo dos anos esta demanda por documentação começou a ser melhor suprida por uma série de grupos e comunidades nacionais, e a área de notícias do BR-Linux, que começou como coadjuvante, acabou se tornando sua parte principal. Em 2002 o site passou a ser operado a partir de um sistema CMS voltado para blogs, as notícias passaram a poder ser comentadas pelos leitores, e com isso o BR-Linux começou a adotar o perfil que tem hoje. A partir de 2005, o site começou a se dedicar de forma mais exclusiva à publicação de notícias, mantendo desde então a média superior a 12 novas notícias por dia.

Mas um dos diferenciais do site continua a ser a possibilidade de os leitores comentarem a notícia (algo natural, uma vez que o modelo adotado é o de blog), com uma média de mais de 80 comentários todos os dias.

 

Nolance.com - Qual distribuição Linux você usa e por quê?

 

Augusto Campos - Eu uso e já usei muitas distribuições diferentes, cada uma para a finalidade que me atende melhor. Este seu questionário está sendo respondido em um notebook no qual tenho instalada a versão mais recente do Ubuntu.

 

Nolance.com - Já passou por alguma “saia-justa” ou alguma situação desagradável no BR-Linux?

 

Augusto Campos - Não, a administração do BR-Linux é bastante tranqüila, possivelmente porque procuro oferecer voz e vez a quem quer que deseje se manifestar, e assim as tendências e paixões do público encontram canal para seguir seu fluxo sem maiores sustos. Eventuais problemas técnicos, como um dia em que o site ficou fora do ar algumas horas porque um link da Embratel havia sido atingido por um trem a centenas de quilômetros de distância, são o que eu lembro de mais desagradável nestes primeiros 10 anos do site.

 

Nolance.com - Quais os Critérios de avaliação e averiguação das noticias enviadas por usuários?

 

Augusto Campos - O formulário de indicação de notícias pelos leitores do BR-Linux tem uma longa lista de sugestões para a redação de notícias com maior chance de publicação. A análise de cada notícia é subjetiva, e leva em conta a relevância, o interesse percebido do público, aspectos éticos, técnicos e até mesmo questões de forma e redação. Em um dia comum, cerca de 40% das notícias enviadas pelos leitores não chegam a ir para a capa do site.

Neste quesito, tenho uma prática que fogem ao usual em veículos da mídia tradicional: quando se trata de uma notícia indicada por um leitor, ou mesmo um press release, sobre um produto ou serviço que seja do interesse da comunidade Linux, eu procuro sempre publicar na íntegra - é a minha parte para ajudar a impulsionar as iniciativas relacionadas ao software livre, independente de que elas tenham ou não caráter comercial.

 

Nolance.com - Quais foram, na sua opinião, a Melhor e a Pior notícia já postada?

 

Augusto Campos - A melhor é sempre a próxima! Embora anda tenhamos um longo caminho pela frente, eu nunca deixo de me surpreender positivamente com os avanços do Linux e do código aberto, dia após dia, sempre considerando a perspectiva de uma década observando e relatando. As piores notícias que eu me recordo de haver publicado foram algumas notas de falecimento de membros da comunidade. Felizmente foram poucas nestes 10 anos, mas elas também servem para lembrar que mesmo neste nosso meio tão profundamente tecnológico, as mudanças continuam sendo impulsionadas por pessoas.

 

Nolance.com - O BR-Linux é considerado por muitos um forte responsável pela evolução da comunidade nacional, que amadureceu de militantes xiitas, para profissionais mais preocupados com a melhor solução para o cliente, encarando o Linux de forma mais crítica. Você viveu a época da militância, ainda sente falta das discussões acaloradas e da defesa quase religiosa ao sistema?

 

Augusto Campos - Eu vou ter de discordar do texto da pergunta, ao mesmo tempo em que aproveito para registrar que, embora seja um uso comum, acho desrespeitoso com um grupo religioso usar a palavra xiita no sentido que você empregou. Dito isto, acredito que a época da militância não se encerrou - o papel do militante ainda é necessário, e continua sendo bem suprido. O que eu percebi como mudança positiva em épocas mais recentes é uma redução do fundamentalismo, ou da predominância de visões radicais como principal ponto de apoio de posicionamentos. Hoje uma parte considerável da comunidade formada ao redor do software livre adota um conjunto de enfoques mais amplos, plurais, e complementares entre si - embora a questão da liberdade do software e do acesso ao conhecimento continue sendo o denominador comum entre os diversos posicionamentos.

 

Nolance.com - O BR-Linux já recebeu alguma oferta de compra ou algum tipo de absorção?

 

Augusto Campos - Já, das formas mais curiosas e variadas, a ponto de eu ter transformado algumas delas em ‘cases’ na época da graduação. Sou formado em Administração, e este tipo de oferta sem bases reais que já foi comum na Internet brasileira sempre gerava discussões acadêmicas interessantes. As propostas mais curiosas sempre foram as dos portais, que de modo geral procuram sites de conteúdo e fazem uma primeira proposta que, se trocada em miúdos, poderia ser traduzida por: “queremos direitos exclusivos de publicação do seu conteúdo, oferecemos em troca alguma visibilidade e nenhum centavo, não nos comprometemos a fazer nada, mas você precisa assumir esta série de obrigações do contrato padronizado XXYZ”. Comigo nunca prosperaram nestes termos, ainda bem.

Já recebi também propostas de exibição de anúncios de produtos rivais do Linux, verdadeiras antíteses da idéia de software livre, mas nunca me senti tentado a aceitar. Não me posiciono contra outros veículos da comunidade que aceitem vender este tipo de campanha, porque cada um tem sua própria realidade. Mas nos casos que já vi acontecer, acho que foi sempre um gol contra, um retrocesso e uma demonstração de incoerência por parte dos veículos que aceitam publicar anúncios contrários à própria comunidade que procuram representar.

Quanto a propostas de compra do site, nunca recebi uma que chegasse a mencionar preços - e acho que nem vou. Mas já recebi boas ofertas de parceria (várias delas aceitas e ainda em vigor), e o BR-Linux tem relacionamentos sólidos com diversas organizações e empresas, que apóiam o site das mais diversas formas - algumas inclusive sem pedir nada em troca. Merece destaque a LinuxSecurity.com.br, empresa sediada no interior paulista que há mais de 2 anos hospeda o BR-Linux gratuitamente em um de seus data centers, por puro espírito comunitário. Eu exibo um banner deles no site com o maior orgulho, mas nem mesmo isso eles me pedem.

 

Nolance.com - Hoje vimos uma virada na Web, em que os grander barões comerciais da mídia não representam mais as fontes mais confiáveis de informação. Por que acha que isso está ocorrendo?

 

Augusto Campos - Eu acho essa afirmação bastante relativa, o conjunto de veículos da mídia tradicional continua influente e importante para a formação de opinião. O que ocorre é que as novas formas interativas e on-line de publicação (especialmente os blogs) complementam muito bem a grande imprensa, filtrando e multiplicando o que é relevante, ajudando a apontar (ou desmascarar) eventuais falhas na cobertura, e acrescentando informações de suas próprias fontes. Acredito que o conjunto como um todo ficou mais confiável, mas uma das mídias não substitui a outra.

 

Nolance.com - Mesmo apelando sempre nitidamente para o bom senso e consenso democrático, o BR-Linux tem como uma espécie de dogma, encorajar os leitores a buscar outras fontes e formar sua própria opinião. Acha que esse tipo de atitude influencia na posição do BR-Linux como formador de opinião na Comunidade?

 

Augusto Campos - O BR-Linux deixa claro que suas notícias são influenciadas pelas opiniões de seus autores, e por isso acredito que seja justo e correto incluir em todas as páginas a sugestão de que os leitores procurem fontes adicionais de informação, e fornecer até mesmo uma lista de links para outros sites brasileiros que cobrem a mesma cena. A lista de sites brasileiros sobre Linux, mantida pelo BR-Linux, nasceu com esta intenção, e hoje é adotada como referência por vários outros sites e comunidades.

Na minha opinião, isto é parte de um posicionamento mais amplo: o BR-Linux se identifica como uma parte integrante da comunidade em que participa, e procura ser permeável e atuar em colaboração com outros projetos e grupos nacionais (e até mesmo internacionais) com interesses compatíveis. Acredito que por esta razão o BR-Linux acaba ampliando mesmo o seu raio de alcance, porque age em cooperação e sintonia com a sua própria comunidade - e assim conquista e mantém a cada dia o direito de escrever e sustentar sua própria opinião.

 

Nolance.com - E por fim, qual seu conselho para atingir sucesso escrevendo para a Web?

 

Augusto Campos - Definir um plano, um bom conjunto de metas, um objetivo - e lembrar-se deles todos os dias, antes de começar a escrever e na hora de tomar todas as decisões relacionadas ao que vai publicar. Se o seu plano for realista, e você tiver força para prosseguir com consistência mesmo com todas as dificuldades do início (nem preciso dizer que o BR-Linux demorou mais de 8 anos antes de começar a ter 1 milhão de leitores por mês), você acabará alcançando cada uma de suas metas - e sempre estará mais próximo de seu objetivo. Mas se você não definir para si mesmo onde quer chegar, todas as demais decisões ficarão mais difíceis.

É isso aí pessoal, gostaria de agradecer ao Augusto Campos pela atenção dada ao meu pedido de entrevista e dizer mais uma vez, que apesar dele mesmo discordar, é sempre um prazer conversar com um ícone da comunidade Linux do Brasil.


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